segunda-feira , 16 maio 2022

Por um mundo melhor

“Ser voluntário é doar seu tempo, trabalho e talento para causas de interesse social e comunitário e com isso melhorar a qualidade de vida da comunidade”

IMG-20140214-WA0033 Francine Gorski sabe bem o que essas palavras significam. Passou dois meses na África, em trabalho voluntário. “A ideia surgiu em 2007 onde eu participava do Grupo de infância e adolescência da URI, quando fazia Direito. Nós frequentávamos projetos, ajudávamos. Além disso, eu sempre fui apaixonada por crianças. Então eu sempre tive essa vontade de ir para a África, mas não conseguia parceiro para ir comigo e acabava desistindo”, comenta Francine.

Ela conta que quando a oportunidade apareceu, ela não pensou duas vezes e correu atrás do seu sonho. “Quando fui participar de uma seleção de Mestrado em São Leopoldo, vi que tinha uma agência de turismo que fazia esse tipo de viagem e fui me informar. Assim eles intermediaram a minha viagem, pesquisaram o local, organizaram minha estadia, passagens e o local para fazer o trabalho voluntário. A ideia era fazer um curso de inglês no primeiro mês e no segundo mês, trabalhar com o voluntariado”, comenta.

Francine inicialmente foi para a Cidade do Cabo e acabou se surpreendendo com a semelhança com o nosso país. “Até esperava ver bem mais pobreza, mas achei muito parecido com o Brasil. O que chama atenção são as favelas e a diferença que existe no tratamento dos brancos e negros, além da quantidade de crianças na rua, isso tem demais, assusta, é muito triste. E a violência é imensa, principalmente contra a mulher. Não dava para andar sozinha na rua, sair de noite nem pensar”, conta ela.

As dificuldades foram grandes, mas Francine não desistiu. “No primeiro mês, fiquei em um alojamento, com quartos e banheiro coletivo. Era muito complicado, pois a gente dorme no mesmo quarto com pessoas estranhas, de outros lugares do mundo. A gente não sabe de onde vem e porque estão ali. O sentimento de insegurança é constante. Esta escola era no centro da cidade e o alojamento era próximo, então era mais tranquilo, era mais civilizado. No segundo mês, eu fui para o subúrbio, em outro alojamento, muito mais precário. Era no meio da favela, com muita violência. Tudo lá tem grades, todo mundo tem medo. O responsável por lá era um rapaz drogado. O cheiro de maconha era da hora que eu acordava até a hora de dormir. Mas, eu aguentei firme”, acrescenta Francine.

A respeito do seu trabalho, ela conta que optou em cuidar de crianças de zero a dois anos, que tinham tuberculose e Aids. “Trabalhei em um local que elas ficam depois que saem do hospital e antes de ir para casa ou orfanato. É parecido com uma enfermaria. É bem triste, pois, do mesmo jeito que eles estavam brincando, eles ficavam ruins, tossiam muito. A minha ajuda lá dentro era trocar fralda, dar comida, brincar com eles, dar atenção. Na minha ala tinha eu e mais quatro pessoas fazendo o trabalho voluntário, para 30 crianças. Eu saia de lá pelas 16h15min, e voltava para o meu alojamento. A janta era inclusa, mas a comida é muito temperada, acabou me fazendo mal. Então eu comia muito mal, mais pão, bolachas. No trabalho, tínhamos horário de almoço, onde eu fui dois dias almoçar num shopping que era perto. Mas assaltaram uma mulher na minha frente, um dia que eu estava indo, depois disso não saía mais para almoçar. E, os voluntários não têm onde guardar comida no Hospital, então não dava pra levar muita coisa, em função do calor, pois estragava. Nosso almoço era suco morno e sanduiche, todos os dias”, conta Francine.

Foram 30 dias exclusivos de trabalho voluntário. Uma experiência rica em aprendizado, mas sofrida. “Se for colocar na balança tudo o que eu aprendi, o que eu vivi com aquelas crianças supera todas as dificuldades que eu passei lá. Eu voltei melhor, outra pessoa, dando valor para outras coisas. Eles sim são os verdadeiros guerreiros. Eu penso em voltar, mas não sozinha. Penso em ir para o Norte da África, que é onde se tem mais pobreza e mais crianças com necessidades. Acho que deixei de fazer muita coisa por estar sozinha e principalmente, ser mulher. Eu não podia me arriscar tanto. Na rua, eles mexem com as mulheres, chamam. Não dava nem pra ir no mercado, dependendo do horário”, conta.

 Sobre seus dias finais na África, os sentimentos se misturavam. “Mexe muito com o psicológico. A gente tem que se manter forte por eles. De alguma forma, aquilo me fazia bem. Quando estava terminando meu tempo lá, era um misto de sentimentos. Eu queria muito vir para casa, mas ao mesmo tempo eu queria ficar. Me apeguei demais nas crianças e elas a mim. Eu sei que fiz um bom trabalho e ajudei o que pude enquanto estive lá. Foram momentos maravilhosos com eles. Receber todo aquele amor e dar carinho, sem pedir nada em troca é mágico”, finaliza.

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